quarta-feira, 14 de maio de 2014

“É o alto da serra. Em frente, a alguns decâmetros, abre-se, rasga-se um vão, uma clareira enorme por onde se enxerga um horizonte remotíssimo, um acinzentamento confuso de serras e céu, que assombra, que amesquinha a imaginação. Começam aí os planos inclinados… (A Carne – Júlio Ribeiro)
 

Paranapiacaba: ‘lugar de onde se vê o mar’, em tupi-guarani. Num dia claro, esta era a visão que tinham os povos indígenas que passavam por ali, depois de subir a Serra do Mar rumo ao planalto. No século XIX, naquele caminho íngreme utilizado pelos índios, desde os tempos pré-coloniais, seria construída uma estrada de ferro que mudaria a paisagem do interior paulista e ocasionaria a fundação da vila de Paranapiacaba.




















Versão moderna da cena vista por Martim Afonso em Paranapiacaba, no alto da Serra do Mar
Foto em 8/5/2004 pelo foto-geógrafo César Cunha Ferreira


O início

O fator preponderante para a construção da Ferrovia Santos-Jundiaí foi a expansão do café, que chegou ao Rio de Janeiro no início do século XIX e logo se espalhou pelo vale do Rio Paraíba. A próxima região ocupada pela cultura cafeeira seria o oeste paulista, já bem no interior do estado. A partir daí, tornou-se urgente encontrar um meio de escoar o café com maior facilidade para o Porto de Santos. O mercado no exterior era certo, mas o produto levava dias de viagem até o litoral.
Os primeiros estudos para a implantação da ferrovia começaram em 1835, mas foi apenas depois de 1850 que a ideia começou a sair do papel, graças ao espírito empreendedor do Barão de Mauá. Ele encontrou nos ingleses os parceiros ideais para executar o projeto. Além de ter interesses em dinamizar o fluxo de exportação e importação brasileiro, a Inglaterra detinha uma vasta experiência na construção de ferrovias, utilizando a tecnologia da máquina a vapor – algo imprescindível para vencer as dificuldades técnicas impostas pelo desnível de 796 metros entre o topo da serra e o litoral. Em 26 de abril de 1856, a recém-criada empresa inglesa São Paulo Railway Co. recebia, por um decreto imperial, a concessão para a construção e exploração da ferrovia por 90 anos.

Em 15 de maio de 1860, as obras foram iniciadas. Durante os trabalhos de preparação do leito e instalação da linha com 139 km foi necessário que se constituísse um acampamento no alto da serra do Mar a 796 m de altitude. O local escolhido para o acampamento principal ficava no topo da serra e era próximo das obras. Esse local - que era um vale circundado por morros onde a Companhia, circunstancialmente, instalou o pessoal operacional, técnico e administrativo do sistema ferroviário - denominou-se Alto da Serra.

A vila de Paranapiacaba era inicialmente apenas um acampamento de operários. Depois da inauguração da ferrovia, em 1867, houve a necessidade de se fixar parte deles no local para cuidar da manutenção do sistema. Assim, construiu-se a Estação Alto da Serra, que também foi o primeiro nome dado ao lugarejo. Por causa da sua localização, último ponto antes da descida da serra, a vila começou a ganhar importância. Também nesta época foi fundada, em torno da estação São Bernardo, a futura cidade de Santo André, à qual a vila de Paranapiacaba pertence hoje.
Enquanto isso, a ocupação no interior do estado se consolidava, graças à estrada de ferro. O comércio e a produção agrícola aumentaram significativamente. Em pouco tempo já era preciso duplicar a ferrovia.

A estação original, em foto c. 1895. Acervo Paulo Augusto Mendes

A partir de 1896, começaram as obras. Paralelamente aos trabalhos de duplicação, a vila também sofreria modificações. No alto de uma colina, os ingleses construíram a casa do engenheiro-chefe, chamada de Castelinho, de onde toda  a movimentação no pátio ferroviário poderia ser observada. Na mesma época, foi erguida a Vila Martim Smith, com casas em estilo inglês, de madeira e telhados em ardósia, para servir de moradia aos funcionários da empresa. Em 1900, o novo sistema de planos inclinados é inaugurado, recebendo o nome de Serra Nova.



A velha estação do Alto da Serra possuía um aspecto original. Sua torre que lembra o Big-Ben de Londres, era equipada com um relógio, cujos mostradores em algarismos romanos podiam ser vistos a longa distância. Além da função visual, o relógio da estação também desempenhava importante papel como referencial "sonoro", pois estava localizado em uma torre elevada.



A estação do Alto da Serra foi desativada em 1977 e já estava em
processo de demolição, quando sobreveio um incêndio em janeiro de 1981 e, dela, só restou a torre do relógio que,  restaurada, foi integrada à atual estação que atualmente se transformou no Museu Ferroviário






Arquitetura

Paranapiacaba foi formada por dois tipos de ocupações distintas, são elas:

Parte Baixa: composta pelo núcleo original, Vila Velha ou Varanda Velha e a parte projetada, Vila Martin Smith ou Vila Nova


Com a construção da segunda obra de subida e descida da serra, o núcleo original se estendeu para as áreas vizinhas ao longo do vale. Essa expansão urbana teve um controle mais rígido e planejado, dando início à implantação de um modelo urbano projetado: a Vila Nova ou Vila Martin Smith.
Esse novo conjuNto projetado pela Companhia, formava um sistema organizado através de uma técnica de aglomeração dispostas hierarquicamente e conforme um arranjo que definia o desenho das habitações. Isto vinha reforçar o aspecto britâncio das construções já existentes, que eram arquitetonicamente diferenciadas pela utilização de sistema construtivo em madeira, a maioria em pinho-de-riga, porém trazia novidades quanto ao sistema construtivo, pois as habitações possuíam uma tipologia pré-definida.



No alto de uma colina, os ingleses construíram a casa do engenheiro-chefe, chamada de Castelinho, de onde toda a movimentação no pátio ferroviário poderia ser observada.

Hoje funciona no Castelinho o Centro de Preservação da Memória de Paranapiacaba. Ali estão reunidos objetos e instrumentos de trabalhos da época dos ingleses, que foram embora em 1946.

Parte Alta
Do outro lado da estrada de ferro, a Parte Alta de Paranapiacaba, que não pertencia à companhia, seguia padrões arquitetônicos portugueses, diversos da vila inglesa. A área começou a ser ocupada por comerciantes para atender os ferroviários já na década de 1860. Ali também moravam os funcionários aposentados, que não poderiam mais usar as casas cedidas pela empresa, mas não queriam mudar-se da cidade. O alinhamento dos sobrados geminados juntamente com a igreja e o cemitério, são os principais referenciais da Parte Alta.










Maquete de toda a da cidade







Casas de influências portuguesa e italiana cujo o comércio era localizado 
no andar de baixo e as residências no andar superior.








Educação



Foto meramente ilustrativa somente para remeter à ideia
arquitetônica escolar da época

No ano de 1893 na cidade de Paranapiacaba foi fundada a Escola Pública do Alto da Serra, criada inicialmente para atender a 27 crianças. Dois anos depois de sua inauguração a escola se transformou na Escola Mista do Alto da Serra, atendendo a 41 crianças.









Notá-se que a norma culta da língua na época era diferenciada
Quando foi inaugurada a Vila Martin Smith, um morador da vila ergueu com seu dinheiro um prédio escolar para oferecer instrução primária a 200 crianças. Este prédio foi inauguado em 1925 e recebeu o nome de Grupo Escolar de Paranapiacaba, sendo assim denominado até 1939, quando teve seu nome trocado para Grupo Escolar Lacerda Franco, alteração essa, realizada para homenagear o então diretor da estrada de ferro paulista, Antonio de Lacerda Franco. A seguir, notá-se que o foco da escola na época era apenas na educação moral e cívica e na  alfabetização, conforme entrevista com a Sra. Francisca Cavalcante de Araújo, uma das mais antigas moradoras da cidade. 


Estrutura atual do Grupo Escolar totalmente abandonada
e sem projeto algum para reforma e/ou reaproveitamento
                                  


Moradora de Paranapiacaba há 40 anos, a Sra. Francisca lutou e mobilizou a pequena vila para ter os trens de turismo de volta à Paranapiacaba. Por causa disso, ela ganhou o título de madrinha do Expresso Turístico. "A ferrovia é tudo. É nossa razão de viver".


EEPG Antonio Lacerda Franco

Atualmente, seguem os moldes das escolas municipais e estaduais do Estado de São Paulo.
Há na cidade duas escolas, uma escola municipal que atende a Educação Infantil ao Ensino Fundamental I, e a EE Senador Lacerda Franco aos estudantes do Ensino Fundamental II e Ensino Médio. É importante dizer que não há creche na cidade.